O cenário é em meados dos anos 2095 (calendário cristão), onde
sete aparelhos decolam da Wayship SMAS-M3 em missão de investigação de grande campo magno-gravitacional que surgiu a pouco tempo sobre a crosta de um planeta de um cinturão coberto pela Guarda Especial.
O planeta mencionado possui tamanho pequeno e é na maioria de seu diâmetro, gás atmosférico, portanto não deveria estar exercendo nem um décimo da força atrativa captada pelos sensores de vigilância da SMAS-M3.
O esquadrão Gryphon, composto por máquinas de combate multitarefas AREv-35 é liderado pelo Tenente Adis Damon, com a identificação numérica de G-0 e em sua primeira missão como líder de um esquadrão.
Parâmetros da missão consistem em fotografia, reconhecimento e possível identificação do causador da distorção.
- Esquadrão Gryphon vocês estão livres para decolagem no setor 4.
- Entendido torre, esquadrão Gryphon (se pronuncia grifon) de saida – responde o tenente.
Aberto os portões do setor 4, os sete aparelhos voam em formação V em direção ao planeta, com tempo de chegada previsto em 12 minutos.
Logo ao aproximarem-se da orbita do planeta, começam a ser dragados para dentro da atmosfera, o que é imediatamente relatado:
- Aqui é G-0, tenho inclinação irregular apartir da orbita do planeta, instrumentos detectaram a gravidade do planeta em 13G’s (medida utilizada como referencia, como o mach 1 equivale a 1x a velocidade do som, 1G de é equivalente a gravidade terrestre).
- Entendido G-0, prossiga com os parâmetros, cambio.
- Positivo, descendo..
Com alguns beeps e alertas ressoando em seu HUD (head up display ou visor frontal – semelhante aqueles de aviões de caça), o quinto membro do esquadrão adverte:
- Senhor, se descermos muito, o fator gravitacional vai aumentar e acredito que teremos respostas limitadas.
- eh.. G-1-3 entendido, vamos continuar descendo, cambio.
- Senhor, poderíamos ajustar os aparelhos para fotografar da altitude atual.
- Negativo 1-3, não teríamos nada alem de fumaça e rabiscos nas nossas fotos, vamos descer mais..
- Entendido, 1-3 em formação..
E prosseguiram descendo, até entrarem na atmosfera do planeta, onde já era contado um fator 19G’s de gravidade, uma vez com as turbinas no máximo, a altitude pode ser fixada e fotos puderam ser tiradas com nitidez, porém, daquele local não era possível identificar nenhuma causa aparente, apenas rochedos e canyons cinza-escuro eram captados pelas câmeras de reconhecimento.
- Vamos procurar mais indícios Gryphons – disse o tenente, com voz firme e seguro. Adis era conhecido por sua excelente habilidade com os módulos de combate de classe AREv e grande determinação, era alguém que definitivamente não voltaria para casa sem uma missão cumprida, contava com muitas habilidades e experiência, além de auto confiança firme, uma vez que nunca havia visto nada abater um AREv.
Alguns instantes após a ordem, a segunda integrante do esquadrão reporta:
- Tenente, estou visualizando algo estranho, você deveria dar uma olhada nisso - e através de um sistema de links, envia a gravação feita pelo seu equipamento.
- Isso não é possível, não detectamos atividade desse tipo há anos nesse setor, quero todos direcionando seus equipamentos e me extraindo o máximo de informações que puderem.
Dos sete AREv’s, três estavam equipados com armamento para uma possível defesa, numero pequeno devido a grande quietude do setor coberto pela SMAS-M3, os outros quatro eram compostos pelo servidor (G-0) e outros 3 de reconhecimento, magnético, visual e fotoelétrico.
- Sim senhor, não há duvidas!
- Afirmativo, controle aqui é G-0, temos codigo 3, foi detectada presença massiva de criaturas anti-polares (termo utilizado para definir a natureza de uma vibração, é como definir uma cor, digamos que anti-polar seria o preto e magi-polar seria o branco ou vibração negativa/positiva respectivamente).
- G-0, pode identificar a especie das criaturas, cambio
- Nosso banco de dados não encontrou nada preciso, mas sao algo irracionais, escamadas e negras, possuem pupilas redondas (a forma da pupila é um grande meio de se identificar a natureza de uma criatura) e iris amarelada, quatro patas e cauda alongada. Há tambem a presença de algum tipo de kako-aim (kako aim é um termo utilizado para definição de lider, um lider de bando, algo ou alguem que lidera um grupo irracional, como um pastor e suas ovelhas), em proporção de um para cada duzentos mil.
- Duzentos mil, entendido, pode precisar a quantidade de criaturas?
- Afirmativo, o scanner termográfico mostra que estão agrupados uns sobre os outros em uma camada de aproximadamente dois mil metros, totalizando cinco milhões ou mais criaturas.
- Entendido G-0, você tem ordens de retornar imediatamente, pegue seu time e retorne, repetindo, retirada imediata.
O tenente olhou pela bolha transparente da cabeça de seu AREv e percebeu que o equipamento não havia exagerado, o numero de criaturas era assustador, estavam quase alcançando a parte gasosa da atmosfera do pequeno planeta.
- ok Gryphon, vamos voltar, ascendente a esquerda - e iniciou a manobra, sem observar que seu HUD indicava em um nivel critico de gravidade, forçando as RPM’s de suas turbinas já sobreaquecidas, causando uma pequena pane no motor esquerdo, o que diante de tanto peso, o fez parar no ar, como alguém que é jogado para cima e sobe ate ficar estático, para iniciar a queda de volta.
O esquadrão percebeu o risco vermelho causado pelo esguicho incandescente de combustível da turbina esquerda do modulo do tenente e a estática de movimento dele a dezenove mil metros de altitude.
- Stoll stoll! – gritou o tenente, virando a frente do seu modulo para o chão.
A essa altura, todos os módulos tinham seus motores forçados e aquecidos, devido ao grande tempo em operação ao máximo de potencia, potencia necessária para mante-los no ar diante de tanta gravidade.
Todos observaram atônitos o mergulho do tenente, mergulho distorcido, que fazia uma curva, como se o tenente estivesse sendo puxado para o meio da nuvem de criaturas logo abaixo deles. Em sincronia, executaram descida leve, para ganhar velocidade e travaram o modulo G-0 em rota de campo circular (campo elétrico formado por AREv’s, possui a característica magnética, utilizado como defesa, para ampliar o poder de reflexão dos escudos refletores ou controle remoto de outro aparelho ou ainda, suporte e troca de dados), podendo assim distribuir a velocidade e peso da queda do tenente para todas as turbinas cansadas dos outros seis aparelhos.
Uma vez estabilizados, poderiam iniciar uma força conjunta graças ao campo elétrico formado e subir de volta, porem, lentamente. Foi neste momento, que a segunda integrante, Ely percebeu o risco em que todos se encontravam:
A nuvem de criaturas negras fazia ascensão quase imperceptível, porem perigosa, para a posição deles e um determinado grupo de criaturas já estava apar da falha do tenente e subiam umas sobre as outras para alcança-los.
Em pulos vigorosos, as criaturas cada vez chegavam mais perto, e o time de sete AREv’s encontrava-se em situação extremamente delicada.
A turbina do tenente parecia não estar em um bom dia, mais uma vez ela oscilou em duas breves piscadelas, suficientes para faze-lo cair cerca de 15 metros abaixo do grupo. Um saltitante havia percebido, logo, diversos deles estavam pulando, como jacarés para abocanhar uma isca pendurada. Todos estavam com 100% de potencia acionada e tudo que podiam fazer era esperar e torcer para serem mais rápidos que a gulosa e terrível legião que os assistia de baixo.
Desta vez era pra valer, a turbina do tenente oscilou novamente, uma pá externa nao havia aguentado o calor excessivo e soltara-se fazendo com que o tenente caisse mais, em atitude de reflexo, um dos escoltadores vira em 190° para baixo, aciona sua metralhadora de explosão de tubos rotativos Phalanax e seu canhão multifuncional CF-7000 e cai em direção ao tenente com fogo total.
Ouve-se um som arrebatador de quatro segundos das duas armas do escoltador, que faz a multidão que estava próxima ao tenente cair como pedra, nocauteada.
A turbina do tenente libera um fluxo de combustível devido ao vácuo causado pela ausência da pá, o que o impulsiona para cima de forma milagrosa.
Porem, o escoltador ainda tinha seu AREv direcionado em 190° do céu do planeta e caia como um meteoro.
- Gryphon 1-3 arremeter, arremeter! – gritou Ely
- Não consigo! esta muito pesado! não consigo!! - em pequena demonstração de habilidade, o escoltador consegue fazer seu AREv pairar por breves segundos, o que o distancia horizontalmente do grupo, em direção ao sul.
- Temos que voltar! - diz Ely exaltada, virando-se para Adis – ele não vai arremeter sozinho!
- Negativo, devemos evacuar imediatamente, se tentarmos salva-lo, perderemos todo o grupo, estamos com uma distancia segura da massa negra..
- Mas ele esta caindo porque tentou salvar você!! – replicou Ely indignada e com os olhos já umedecidos pela grande tensão dos últimos momentos.
- Vamos, devemos retornar, Gryphons vamos subir.
- Não vamos não - Ely ameaça virar em 190° como o escoltador, porem é detida pelo reflexo e habilidade de Adis – Libere-me, libere-me - replica, ao ver que seu sistema esta sendo controlado por Adis remotamente.
- Estou caindo, não posso.. não posso parar! – urra o piloto ofegante – Meu Deus!! – nesse momento, ele penetra a uma velocidade altíssima na legião, o que impede e destroça qualquer obstaculo na sua frente.
O EDS (eletrostatic defensive shield – escudo elestrostatico de defesa) resiste bem aos primeiros segundos, mas devido as centenas de impactos recebidos, se rompe e logo a fuselagem é exposta as caudas e garras aleatórias das criaturas, que agora de perto, parecem muito mais repugnantes e assustadoras. Entre sons de estalos de corpos sendo estilhaçados e alertas de emergência do cockpit, o piloto percebe que sua única chance é a superfície, talvez de lá seja possível fugir, esconder-se e recarregar-se para um retorno dramático a sua base. Quando a ideia brilha em sua mente, um alerta mais intenso dispara: Warning, warning – communications systems, damaged!. Era sua caixa de comunicação, ao seu ombro esquerdo que havia sido arrancada de alguma forma. Logo, ele tinha apenas um pequeno sinal de radio enviando as condições de seu modulo para a SMAS-M3.
O castigo na fuselagem continuava, barulhos e rachaduras começavam a ficar mais intensos, ele decide então iniciar a proteção vetorial, uma forma de defesa extremamente eficaz que consiste em fluxo de vácuo ao redor do modulo que corta e destrói qualquer coisa em um raio de 7 metros, entretanto, gasta uma quantidade vital de energia.
Diversos sistemas já estão comprometidos, escudos, motores, defesa e navegação, Gryphon 1-3 agora é apenas um corpo de metal caindo sobre insetos malignos e pegajosos de origem desconhecida.
Todos do grupo observam seus sistemas falhando e apagando consecutivamente e um silencio mortal toma a frequência de radio. A queda toma velocidade menor e as criaturas ja conseguem segurar de certa forma o AREv 1-3, ate que subitamente uma cauda aparece na frente da bolha transparente de 1-3 estilhaçando-a, fazendo cacos de cristal lens (uma liga composta utilizada nas bolhas de diversos aparelhos, entre eles o AREv) e cristal liquido do HUD voarem sobre o rosto do piloto o deixando inconsciente. A maquina acerta o chão, com um grande estrondo.
Ouve-se uma especie de rugido que se espalha de forma síncrona entre os 5 milhões de monstros, dando a impressão de que estão comemorando algo.
O piloto sente o impacto no chão e também os golpes impiedosos de caudas e garras perfurando a fuselagem de seu AREv e de seu corpo..
Sua vida passa em uma reação hiper rápida por sua mente enquanto sente a voracidade e potencia de uma cauda pontuda perfurando seu tórax e abdome e coxas.. e lagrimas correm por seus olhos feridos..
- Este é o fim.. -pensa- tantas coisas passei.. tanto fiz.. nunca vivi em mentiras.. me dediquei e ate a razão de eu estar aqui no chão.. foi em sacrifício por alguém.. não.. não pode ser assim..
Nesse momento, o piloto vê uma luz ao mesmo tempo que sente uma leve câimbra em torno da sua nuca que se estende por dentro de seu cranio.. a dor cessa e ele entra em estado inconsciente.
Já em altitude segura, o esquadrão de 6 AREv’s sentem um clarão.. seguido de um oco e sufocado barulho de explosão. Os reatores subnucleares de 1-3 haviam se auto-detonado (quando a função vital de um piloto cessa, eles são auto-detonados para que seja mantido o sigilo da tecnologia implementada no aparelho).
É comunicada a perda do módulo AREv-35 G13 para o controle da missão. Missão esta trágica para a frota e também para Adis, que agora havia visto um AREv-35 ser abatido.
Continua..
Glossário:
*Wayship SMAS-M3: nave de vigilia, sozinha é capaz de monitorar todo um setor de pequeno porte, realizar diversas missões do tipo reconhecimento, assalto, resgate, pesquisa e defesa improvisada.
**Guarda Especial Unida: grupo de monitoramento espacial terrestre, opera em todo o sistema solar.
***O sistema HUD dos AREv-35 é composto de um conector extra-sensorial que capta sinais cerebrais de reflexo e comandos motores, auxiliando assim no posicionamento do equipamento e manobragem do aparelho